Entre o Controle e a Confiança
“Entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher a resposta.” — Viktor Frankl (neuropsiquiatra e filósofo austríaco, 1905-1997)
Ao longo da vida, convivemos — e aprendemos — com diferentes formas de gestão e, principalmente, com diferentes perfis de gestores. Alguns são pacientes, outros participativos; há os observadores, os que dão autonomia desde o primeiro dia e aqueles que, por diferentes razões, acabam concentrando praticamente tudo em suas próprias mãos.
É justamente sobre esse comportamento que gostaria de refletir hoje.
Como uma profissão essencialmente executora, articuladora e facilitadora - como é o Secretariado - consegue trabalhar de forma eficiente ao lado de um gestor que centraliza?
Se você já trabalhou com um, provavelmente sorriu agora.
Todos nós conhecemos aquele gestor que pede para você elaborar um documento... mas, cinco minutos depois, já está com o arquivo aberto fazendo alterações. Ou aquele que pergunta sua opinião, concorda com ela e, ainda assim, prefere fazer "só um ajustezinho". Quando percebemos, o "ajustezinho" virou uma nova versão inteira.
Há também aquele que delega uma atividade, levanta da cadeira para perguntar como está indo, volta dez minutos depois para conferir novamente e, antes mesmo de você terminar, conclui: "Deixa que eu faço." Convenhamos: às vezes, a atividade nem era tão urgente assim... mas a ansiedade era.
Brincadeiras à parte, talvez eu tenha escolhido esse tema porque esse foi um dos maiores desafios que encontrei ao longo da minha trajetória profissional. E justamente por conhecê-lo de perto, percebi que a resposta dificilmente está em tentar mudar o comportamento do outro.
É muito fácil concluir que determinado gestor "não sabe delegar". Em alguns casos, isso pode até ser verdade. Em outros, a centralização pode nascer da responsabilidade do cargo, da pressão por resultados, da experiência acumulada, de um padrão de trabalho ou de tantos outros fatores que sequer conhecemos.
Independentemente da origem, existe uma pergunta que considero mais produtiva:
O que está ao meu alcance fazer para construir uma relação de confiança?
Essa mudança de perspectiva altera completamente o nosso papel.
Em vez de gastar energia tentando convencer alguém a delegar, podemos demonstrar, dia após dia, que somos capazes de assumir responsabilidades com qualidade, discrição, organização e comprometimento. Confiança dificilmente nasce de um discurso; ela é construída pela constância.
E, curiosamente, essa construção acontece nas pequenas coisas: cumprir um prazo sem precisar ser lembrado, antecipar um problema antes que ele aconteça, apresentar uma solução em vez de apenas relatar uma dificuldade. São atitudes quase silenciosas, mas que dizem muito.
Nem sempre será um processo rápido.
Há gestores que passam a delegar depois de uma boa conversa. Outros precisam de meses — às vezes anos — para perceber que não precisam controlar cada detalhe. E alguns talvez nunca mudem. Faz parte das relações humanas.
Isso significa que devemos aceitar tudo passivamente? Claro que não.
Existem ambientes em que a centralização ultrapassa os limites da gestão e se transforma em excesso de controle, falta de autonomia e desgaste emocional. Nesses casos, também é papel do profissional reconhecer seus limites e avaliar se aquele contexto ainda favorece seu desenvolvimento.
Mas, enquanto estivermos ali, acredito que vale a pena concentrar esforços naquilo que realmente depende de nós – nem sempre é sobre o outro.
Viktor Frankl nos lembra que existe um espaço entre aquilo que acontece e a forma como respondemos. Gosto muito dessa ideia porque ela nos tira da posição de espectadores e nos coloca como protagonistas da nossa própria postura.
Não controlamos o estilo de liderança do nosso gestor.
Não controlamos suas experiências.
Não controlamos suas decisões.
Mas controlamos a qualidade das nossas entregas.
Controlamos nossa comunicação.
Controlamos nossa postura.
E controlamos, sobretudo, a confiança que escolhemos construir todos os dias.
Enquanto escrevia esta coluna, percebi uma certa ironia.
Passei boa parte da carreira tentando entender os gestores que centralizavam tudo. Mas, em alguns momentos, também me peguei fazendo exatamente a mesma coisa.
"Deixa que eu faço."
"É mais rápido."
"Assim fica do jeito que precisa."
Quem nunca?
Talvez centralizar não seja apenas um comportamento presente em algumas lideranças. Talvez seja uma tentação bastante humana quando acumulamos responsabilidades, sentimos a pressão dos prazos ou acreditamos que ninguém fará exatamente como imaginamos.
O problema é que, quando o controle ocupa espaço demais, a confiança acaba ficando pequena.
E sem confiança não há autonomia.
Sem autonomia, não há crescimento.
Nem para quem lidera.
Nem para quem executa.
No Secretariado, administramos agendas, documentos e prazos. Mas são as pessoas — e a forma como escolhemos nos relacionar com elas — que verdadeiramente determinam o sucesso do nosso trabalho.
Talvez seja justamente naquele pequeno espaço de que falava Viktor Frankl — entre o impulso de controlar tudo e a coragem de confiar — que nasçam as melhores relações de trabalho.